Dor, Prazer e Música: três pontos de vista
Várias obras foram escritas ao longo da História que narrando, ilustrando ou comentando (um)a Dor, são ao mesmo tempo fonte inesgotável de prazer. Por coincidência (não há coincidências) e ossos do ofício, passei na passada semana por três perspectivas, tão diferentes quanto fascinantes:
1. John Dowland, "Flow my tears"
Flow my tears, fall from your springs,
exil'd for ever let me mourn
when night's black bird her sad infamy sings,
there let me live forlorn.
Down, vain lights, shine you no more,
no nights are dark enought for those
that in despair their last fortunes deplore,
light doth but shame disclose.
Never may my woes be relieved
since pity is fled,
and tears, and sights, and groans, my weary days
of all joys have dreprived.
From the highest spire of contentment,
my fortune is thrown,
and tears, and sights, and groans, my weary days
are my hopes since hope is gone.
Hark, you shadows that in darkness dwell,
learn to contemn light,
happy, happy they that in hell
feel not the world's despite.
"Flow my tears" é, de todas as canções jamais escritas, aquela que provavelmente melhor esgota todo o potencial da relação entre música e poesia na elaboração de uma expectativa narrativa. Construída sobre uma Pavana, uma lentíssima dança do séc. XVI que cria a ilusão de movimento com um destino quando na realidade é circular e redundante, o seu texto descreve a aceitação resignada de uma dor, a renúncia por inanição.
A música não se limita a narrar o texto, interfere nele: a construção melódica, harmónica e o contraponto levam-nos a falsas leituras de algumas passagens ("Never may my woes"; "From the highest spire of contentment"; "happy, happy") e a criar esperanças de uma inversão dos acontecimentos em direcção a um final feliz, que acaba por nunca chegar. As sucessivas esperanças frustradas injectadas pela música fazem com que nos últimos versos - onde se inveja a felicidade daqueles que estão no Inferno porque não sentem o desprezo do mundo - se alcance um nível de negativismo e escuridão que o texto isoladamente não permite.
2. Anónimo do séc XVI / Carlos Bica & Azul (Twist, 1999); "Ay! linda amiga"
ay! linda amiga que no vuelvo a verte,
cuerpo garrido que me lleva la muerte.
Noy hay amor sin pena, pena sin dolor,
ni dolor tan agudo como el del amor.
Levanteme madre al salir el sol,
fui por los campos verdes a buscar mi amor.
Carlos Bica é para mim o paradigma do músico perfeito (mas tenho outros). Desde o primeiro momento em que ouvi o trio Azul em concerto que procuro não perder uma oportunidade para conhecer melhor o seu trabalho, ao vivo ou em disco. Bica não pára de me surpreender, pela sua coerência, pela sua imaginação inesgotável e pelo interminável refinamento da sua arte (quanto mais ouço, mais gosto e mais descubro).
Quando comprei Twist (o segundo álbum de Azul), um universo de novidades e surpresas abriu-se para mim. Nesse disco tive dois choques: o primeiro por ouvir uma versão do conhecido vilancico do século XVI "Ay! linda amiga"; o segundo com a nota que marca o início da digressão de Frank Möbus pela mesma canção. Um único som, uma única nota alterada da melodia original consegue condensar e expressar toda a profundidade da segunda estrofe.
Por muito que ouça essa faixa, o choque acontece sempre.
3. António Pinho Vargas, "Six Portraits of pain" (2005)
Perspectiva menos "convencional" sobre a Dor, e motivo para mim de grande fascínio, é a de "Six Portraits of pain" de António Pinho Vargas, que ouvi recentemente em concerto. Não se trata de uma obra programática, como adverte o autor nas notas de programa (e a propósito, que maravilha ter notas que preparam a audição e não que debitam dados biográficos ou técnicos sobre os compositores e obras).
Não recordo exactamente as palavras, mas em determinada passagem de "O erro de Descartes" António Damásio compara o corpo humano a um aeroporto em pleno funcionamento para descrever a "emoção" como uma fotografia que capta um instante dessa actividade fervilhante, constituída por acontecimentos independentes mas interligados. A obra de Pinho Vargas é talvez a transposição dessa metáfora para o universo do som e da música. Os múltiplos "objectos" musicais apresentados convivem, relacionam-se e interligam-se da mesma maneira que diversas sensações simultâneas, por vezes antagónicas e conflituosas, participam na dor. Os "objectos" de Pinho Vargas não se referem à dor, não a ilustram, não a narram: eles SÃO a própria Dor.
"Six Portraits of pain" encerra em si própria o paradoxo que comunica: a dor que provoca é tão grande como o prazer que oferece, e é dele indissociável.
1. John Dowland, "Flow my tears"
Flow my tears, fall from your springs,
exil'd for ever let me mourn
when night's black bird her sad infamy sings,
there let me live forlorn.
Down, vain lights, shine you no more,
no nights are dark enought for those
that in despair their last fortunes deplore,
light doth but shame disclose.
Never may my woes be relieved
since pity is fled,
and tears, and sights, and groans, my weary days
of all joys have dreprived.
From the highest spire of contentment,
my fortune is thrown,
and tears, and sights, and groans, my weary days
are my hopes since hope is gone.
Hark, you shadows that in darkness dwell,
learn to contemn light,
happy, happy they that in hell
feel not the world's despite.
"Flow my tears" é, de todas as canções jamais escritas, aquela que provavelmente melhor esgota todo o potencial da relação entre música e poesia na elaboração de uma expectativa narrativa. Construída sobre uma Pavana, uma lentíssima dança do séc. XVI que cria a ilusão de movimento com um destino quando na realidade é circular e redundante, o seu texto descreve a aceitação resignada de uma dor, a renúncia por inanição.
A música não se limita a narrar o texto, interfere nele: a construção melódica, harmónica e o contraponto levam-nos a falsas leituras de algumas passagens ("Never may my woes"; "From the highest spire of contentment"; "happy, happy") e a criar esperanças de uma inversão dos acontecimentos em direcção a um final feliz, que acaba por nunca chegar. As sucessivas esperanças frustradas injectadas pela música fazem com que nos últimos versos - onde se inveja a felicidade daqueles que estão no Inferno porque não sentem o desprezo do mundo - se alcance um nível de negativismo e escuridão que o texto isoladamente não permite.
2. Anónimo do séc XVI / Carlos Bica & Azul (Twist, 1999); "Ay! linda amiga"
ay! linda amiga que no vuelvo a verte,
cuerpo garrido que me lleva la muerte.
Noy hay amor sin pena, pena sin dolor,
ni dolor tan agudo como el del amor.
Levanteme madre al salir el sol,
fui por los campos verdes a buscar mi amor.
Carlos Bica é para mim o paradigma do músico perfeito (mas tenho outros). Desde o primeiro momento em que ouvi o trio Azul em concerto que procuro não perder uma oportunidade para conhecer melhor o seu trabalho, ao vivo ou em disco. Bica não pára de me surpreender, pela sua coerência, pela sua imaginação inesgotável e pelo interminável refinamento da sua arte (quanto mais ouço, mais gosto e mais descubro).
Quando comprei Twist (o segundo álbum de Azul), um universo de novidades e surpresas abriu-se para mim. Nesse disco tive dois choques: o primeiro por ouvir uma versão do conhecido vilancico do século XVI "Ay! linda amiga"; o segundo com a nota que marca o início da digressão de Frank Möbus pela mesma canção. Um único som, uma única nota alterada da melodia original consegue condensar e expressar toda a profundidade da segunda estrofe.
Por muito que ouça essa faixa, o choque acontece sempre.
3. António Pinho Vargas, "Six Portraits of pain" (2005)
Perspectiva menos "convencional" sobre a Dor, e motivo para mim de grande fascínio, é a de "Six Portraits of pain" de António Pinho Vargas, que ouvi recentemente em concerto. Não se trata de uma obra programática, como adverte o autor nas notas de programa (e a propósito, que maravilha ter notas que preparam a audição e não que debitam dados biográficos ou técnicos sobre os compositores e obras).
Não recordo exactamente as palavras, mas em determinada passagem de "O erro de Descartes" António Damásio compara o corpo humano a um aeroporto em pleno funcionamento para descrever a "emoção" como uma fotografia que capta um instante dessa actividade fervilhante, constituída por acontecimentos independentes mas interligados. A obra de Pinho Vargas é talvez a transposição dessa metáfora para o universo do som e da música. Os múltiplos "objectos" musicais apresentados convivem, relacionam-se e interligam-se da mesma maneira que diversas sensações simultâneas, por vezes antagónicas e conflituosas, participam na dor. Os "objectos" de Pinho Vargas não se referem à dor, não a ilustram, não a narram: eles SÃO a própria Dor.
"Six Portraits of pain" encerra em si própria o paradoxo que comunica: a dor que provoca é tão grande como o prazer que oferece, e é dele indissociável.

1 Comments:
que inveja!!!!
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