Tuesday, 13 November 2007

A palavra

Há um termo musical moderno que me é bastante simpático. Dá pelo nome de "wordpainting" e utiliza-se para designar uma ideia musical (uma melodia, uma harmonia, um ritmo, uma textura) que ilustra uma palavra do texto literário associado. É frequente o seu emprego no âmbito da música barroca vocal, período em que na relação da música com a literatura a ênfase foi deslocada do enfoque na frase para o enfoque na palavra. O que encontro de deveras cativante neste termo é facto de nele participarem três dos quatro modos que o Homem encontrou para traduzir o mundo em comunicação: a palavra, a imagem, o movimento e a música.

Escrevi "palavra", "imagem", "movimento" e "música" numa ordem aparentemente aleatória, quando na realidade coloco-as por ordem crescente de perfeição. A música é sem dúvida a mais perfeita das formas de comunicação por ser a mais afastada de uma interpretação concreta do viver. A tão apregoada universalidade da música deve-se a esta distância entre a realidade e a sua descrição e não tanto ao facto de ser pretensamente uma linguagem universal (enquanto linguagem não o é, na realidade). A música é uma forma de comunicação universal precisamente porque é aquela mais distante da percepção quotidiana da nossa vivência e, por essa razão, aquela que menores expectativas cria em torno de um significado implícito.
Hesitei em colocar neste grupo o movimento, confesso que ao fazê-lo pensei em primeiro lugar na pantomima e só depois na dança, mas reconheço que não considerá-la seria uma grande injustiça. Por me ser uma área menos familiar, não dissertarei sobre o movimento, prefiro remeter para qualquer filme de Charlot toda a explicação sobre o fenómeno.
Enquanto meio de expressão, a imagem representa em relação à música e ao movimento uma aparentemente maior segurança, pois relaciona-se directamente com uma percepção da realidade que nos é familiar e quotidiana. Quando vemos a fotografia ou o desenho de uma árvore, todos reconhecemos um elemento que integra a nossa vivência, mesmo que nunca tenhamos visto aquela árvore ou sequer uma árvore semelhante àquela. Contudo, dois grandes limites da imagem são óbvios: o primeiro é quando a imagem se distancia do objecto retratado a ponto de não possibilitar o seu reconhecimento (uma fotografia muito tremida, por exemplo); quanto ao segundo, ilustro-o com uma pequena história: quando ofereci à minha afilhada, na altura ela teria 5 anos, um jogo com imagens de Miró e ela declarou "isto é uma árvore" apontando uma das peças, aquela imagem tornou-se evidentemente numa árvore, mesmo nunca o tendo sido até então.
Nos antípodas da música está a palavra. Quando dizemos ou escrevemos "árvore" todos pensamos numa árvore, embora não pensemos todos na mesma árvore: alguns de nós pensarão numa árvore em particular - num pessegueiro, num choupo - outros numa ideia de "árvore" que abrange todas as árvores que existem, existiram e existirão, e outros ainda, a maior parte de nós talvez, num conceito que é tão abrangente que exclui todas as árvores. Finalmente há a arte do equívoco - ao qual chamamos eufemismo, metáfora ou alegoria - e que consiste em atribuirmos a uma palavra um significado ou um contexto totalmente diferente daquele que é estatisticamente comum. Ao contrário da música, a palavra é a forma mais imperfeita de comunicação precisamente porque cria a maior expectativa em torno da compreensão de um significado implícito. Por essa razão, é também a mais utilizada.

Regressemos ao "wordpainting". Se cada cada um dos elementos do nosso quadrivium anteriormente exposto é uma ferramenta para traduzir o mundo em comunicação, é fascinante constatar que um pode se comportar como é próprio de outro. "Desenhar com palavras" ou "pintar uma palavra" são muito mais do que duplas traduções, são a assunção da capacidade de integrar num meio os valores intrínsecos e exclusivos de outro, e de o emular. O conceito de "wordpainting" implica um triplo apuramento desse processo pois trata-se de, através da música, provocar o efeito da imagem de uma palavra que por sua vez é um aprisionamento de uma parte da realidade.
À mente vêm-me imediatamente duas frases que captam este jogo camaleónico: "Pintura é silêncio para o espírito e música para o olhar" de O. Pamuk e "Musica: respiração das estátuas", de R.M. Rilke.

Cheguei ao ponto que motivou a redacção deste texto, pois é sobre a palavra e seus limites que pretendo discorrer. Introduzi há pouco um aforismo: a imperfeição da palavra como meio de comunicação reside nas expectativas que se criam. Mesmo conscientes desse problema, nada podemos fazer para o evitar. É precisamente esse equívoco, que habita o espaço entre a improbabilidade da comunicação definida por Luhmann e a impossibilidade declarada por Shaw, que possibilita o uso da palavra como ferramenta de expressão.
A palavra é mentirosa por natureza. Para o demonstrar, basta atentar em dois fenómenos: nos idiomas e nos dicionários.
  1. Se a palavra fosse verdadeira, não existiria mais do que um idioma. Os idiomas existem porque formatam e condicionam o pensamento. Escrever em português, italiano ou inglês não é o mesmo porque quando se pensa em português, italiano ou inglês não se pensa o mesmo. Se o pensamento fosse uma viagem, o idioma seria a estrada e as palavras os paralelos que a pavimentam. A palavra mente e os idiomas existem para que as mentiras possam percorrer diferentes caminhos. Precisamos de tantos idiomas porque é-nos mais fácil intuir o caminho certo no meio de tantos caminhos errados.
  2. Os dicionários são ao mesmo tempo os guardiões e mestres da mentira que reside na palavra, pois definem as áreas semânticas onde elas vagabundeiam e, pior ainda, fazem-nos crer que existem os sinónimos. A prova cabal da mentira inerente à palavra está na quantidade extraordinária de dicionários que existem e nas diferenças que ostentam. Se a palavra fosse verdadeira os dicionários não poderiam existir, seria impossível definir uma palavra usando outras palavras.

Muito para além de expressar aspectos da nossa vivência, a palavra é capaz de "se erguer acima das ocasiões" (parafraseando Pamuk) e tem o poder de "criar realidades" (para citar Sepúlveda). Isso sucede porque a palavra é simultaneamente matéria-prima e cálamo. Quando Sophia escreve "As paredes são brancas e suam de terror" ou Neruda "mi patria está en tus ojos" serão essas palavras expressão ou fonte de pensamentos? Compreendê-lo e amestrá-lo é descerrar a caixa dos pensamentos que nunca foram pensados, é aceder às realidades que nunca existiram.
O mundo da palavra é tão fascinante quanto perigoso. As palavras podem tecer armadilhas, criar realidades tão perfeitas que nos levem à desilusão e desprezo da outra realidade. Viver no mundo da palavra pode ser maravilhoso mas, porque não é impune, não pode ser feito de ânimo leve. Fernando Pessoa escreveu o que escreveu porque vivia nesse mundo. Mas quantos de nós estariam preparados para aceitar a vida de Pessoa-pessoa em troca de se tornarem no Pessoa-poeta?

O parágrafo seguinte foi o primeiro deste texto a ser escrito. Entretanto, as palavras que encadeei até aqui fizeram-me chegar ao ponto que pretendia mas não da maneira que tinha originalmente pensado. Pelo meio pensei e escrevi, ou escrevi e pensei, coisas que não estavam planeadas.
Tudo isto vem a propósito de ter encontrado recentemente um escritor, Orhan Pamuk, que apenas escreve frases perfeitas. Da leitura atenta de alguns dos seus textos concluí o seguinte:
  1. A frase perfeita implica a aceitação do potencial de equívoco inerente à palavra.
  2. A frase perfeita é combinação acertada das únicas palavras que reduzem o equívoco à mínima expressão.
  3. A frase perfeita são as asas do pensamento.
  4. A frase perfeita é mister para uma vida.

4 Comments:

Anonymous Anonymous said...

como sempre, o teu discurso é pleno de riqueza, não só ao nível da semântica, mas também ao nível da informação nua e crua que revelas.
discordo pouco do todo que dizes, sem saber se concordo ou discordo, do que não dizes por estares a utilizar algo tão dúbio, rasteiriço, mentiroso como o são as palavras.
gostei de ter sentido o pensamento que senti quando li: Pintura é silêncio para o espírito e música para o olhar.
no ponto 2 que referes relativamente aos dicionários, apenas me lembrou o porquê de eu não gostar de dicionários e o porquê de apenas recorrer a eles por mera brincadeira, tal é a seriedade que lhes dou (porque há muito descobri a palavra).
e termino, assim brevemente e sem qualquer eloquência semântica ou sem qulquer acrescento à tua aprendizagem, dizendo-te que para mim, que não sou pessoa ou pamuk, a frase perfeita é a que eu quero ouvir precisamente no instante em que o primeiro som assoma aos lábios de quem para mim a vai proferir.
acima de tudo, espero que não te canses nunca, apesar da sua imperfeição, do seu lugar último da tua lista, das palavras, pois sabes como poucos fazer bom uso delas... mesmo que exista quem não acredite nestas tuas mentiras.

13 November 2007 at 12:41  
Blogger Capitão Merda said...

Estou sem palavras!

24 January 2008 at 09:39  
Blogger Brígida Silva said...

Gostei imenso de tudo o que li a respeito de "A palavra". Em primeiro lugar pela surpresa (não fazia ideia que escreve desta forma!...) e em segundo lugar porque tudo o que li prendeu realmente a minha atenção e o meu interesse até ao último momento, (tanto pelo conteúdo como pela forma), algo raro, ultimamente. Obrigada e... continue! Para quando "escritos" mais recentes?

3 August 2008 at 22:16  
Blogger Berta said...

"cada palavra escrita ou falada pode ser um dardo envenenado"

muito bom este pedaço de escrita!

13 November 2008 at 23:13  

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