A palavra
Há um termo musical moderno que me é bastante simpático. Dá pelo nome de "wordpainting" e utiliza-se para designar uma ideia musical (uma melodia, uma harmonia, um ritmo, uma textura) que ilustra uma palavra do texto literário associado. É frequente o seu emprego no âmbito da música barroca vocal, período em que na relação da música com a literatura a ênfase foi deslocada do enfoque na frase para o enfoque na palavra. O que encontro de deveras cativante neste termo é facto de nele participarem três dos quatro modos que o Homem encontrou para traduzir o mundo em comunicação: a palavra, a imagem, o movimento e a música.
Escrevi "palavra", "imagem", "movimento" e "música" numa ordem aparentemente aleatória, quando na realidade coloco-as por ordem crescente de perfeição. A música é sem dúvida a mais perfeita das formas de comunicação por ser a mais afastada de uma interpretação concreta do viver. A tão apregoada universalidade da música deve-se a esta distância entre a realidade e a sua descrição e não tanto ao facto de ser pretensamente uma linguagem universal (enquanto linguagem não o é, na realidade). A música é uma forma de comunicação universal precisamente porque é aquela mais distante da percepção quotidiana da nossa vivência e, por essa razão, aquela que menores expectativas cria em torno de um significado implícito.
Hesitei em colocar neste grupo o movimento, confesso que ao fazê-lo pensei em primeiro lugar na pantomima e só depois na dança, mas reconheço que não considerá-la seria uma grande injustiça. Por me ser uma área menos familiar, não dissertarei sobre o movimento, prefiro remeter para qualquer filme de Charlot toda a explicação sobre o fenómeno.
Enquanto meio de expressão, a imagem representa em relação à música e ao movimento uma aparentemente maior segurança, pois relaciona-se directamente com uma percepção da realidade que nos é familiar e quotidiana. Quando vemos a fotografia ou o desenho de uma árvore, todos reconhecemos um elemento que integra a nossa vivência, mesmo que nunca tenhamos visto aquela árvore ou sequer uma árvore semelhante àquela. Contudo, dois grandes limites da imagem são óbvios: o primeiro é quando a imagem se distancia do objecto retratado a ponto de não possibilitar o seu reconhecimento (uma fotografia muito tremida, por exemplo); quanto ao segundo, ilustro-o com uma pequena história: quando ofereci à minha afilhada, na altura ela teria 5 anos, um jogo com imagens de Miró e ela declarou "isto é uma árvore" apontando uma das peças, aquela imagem tornou-se evidentemente numa árvore, mesmo nunca o tendo sido até então.
Nos antípodas da música está a palavra. Quando dizemos ou escrevemos "árvore" todos pensamos numa árvore, embora não pensemos todos na mesma árvore: alguns de nós pensarão numa árvore em particular - num pessegueiro, num choupo - outros numa ideia de "árvore" que abrange todas as árvores que existem, existiram e existirão, e outros ainda, a maior parte de nós talvez, num conceito que é tão abrangente que exclui todas as árvores. Finalmente há a arte do equívoco - ao qual chamamos eufemismo, metáfora ou alegoria - e que consiste em atribuirmos a uma palavra um significado ou um contexto totalmente diferente daquele que é estatisticamente comum. Ao contrário da música, a palavra é a forma mais imperfeita de comunicação precisamente porque cria a maior expectativa em torno da compreensão de um significado implícito. Por essa razão, é também a mais utilizada.
Regressemos ao "wordpainting". Se cada cada um dos elementos do nosso quadrivium anteriormente exposto é uma ferramenta para traduzir o mundo em comunicação, é fascinante constatar que um pode se comportar como é próprio de outro. "Desenhar com palavras" ou "pintar uma palavra" são muito mais do que duplas traduções, são a assunção da capacidade de integrar num meio os valores intrínsecos e exclusivos de outro, e de o emular. O conceito de "wordpainting" implica um triplo apuramento desse processo pois trata-se de, através da música, provocar o efeito da imagem de uma palavra que por sua vez é um aprisionamento de uma parte da realidade.
À mente vêm-me imediatamente duas frases que captam este jogo camaleónico: "Pintura é silêncio para o espírito e música para o olhar" de O. Pamuk e "Musica: respiração das estátuas", de R.M. Rilke.
Cheguei ao ponto que motivou a redacção deste texto, pois é sobre a palavra e seus limites que pretendo discorrer. Introduzi há pouco um aforismo: a imperfeição da palavra como meio de comunicação reside nas expectativas que se criam. Mesmo conscientes desse problema, nada podemos fazer para o evitar. É precisamente esse equívoco, que habita o espaço entre a improbabilidade da comunicação definida por Luhmann e a impossibilidade declarada por Shaw, que possibilita o uso da palavra como ferramenta de expressão.
A palavra é mentirosa por natureza. Para o demonstrar, basta atentar em dois fenómenos: nos idiomas e nos dicionários.
Muito para além de expressar aspectos da nossa vivência, a palavra é capaz de "se erguer acima das ocasiões" (parafraseando Pamuk) e tem o poder de "criar realidades" (para citar Sepúlveda). Isso sucede porque a palavra é simultaneamente matéria-prima e cálamo. Quando Sophia escreve "As paredes são brancas e suam de terror" ou Neruda "mi patria está en tus ojos" serão essas palavras expressão ou fonte de pensamentos? Compreendê-lo e amestrá-lo é descerrar a caixa dos pensamentos que nunca foram pensados, é aceder às realidades que nunca existiram.
O mundo da palavra é tão fascinante quanto perigoso. As palavras podem tecer armadilhas, criar realidades tão perfeitas que nos levem à desilusão e desprezo da outra realidade. Viver no mundo da palavra pode ser maravilhoso mas, porque não é impune, não pode ser feito de ânimo leve. Fernando Pessoa escreveu o que escreveu porque vivia nesse mundo. Mas quantos de nós estariam preparados para aceitar a vida de Pessoa-pessoa em troca de se tornarem no Pessoa-poeta?
O parágrafo seguinte foi o primeiro deste texto a ser escrito. Entretanto, as palavras que encadeei até aqui fizeram-me chegar ao ponto que pretendia mas não da maneira que tinha originalmente pensado. Pelo meio pensei e escrevi, ou escrevi e pensei, coisas que não estavam planeadas.
Tudo isto vem a propósito de ter encontrado recentemente um escritor, Orhan Pamuk, que apenas escreve frases perfeitas. Da leitura atenta de alguns dos seus textos concluí o seguinte:
Escrevi "palavra", "imagem", "movimento" e "música" numa ordem aparentemente aleatória, quando na realidade coloco-as por ordem crescente de perfeição. A música é sem dúvida a mais perfeita das formas de comunicação por ser a mais afastada de uma interpretação concreta do viver. A tão apregoada universalidade da música deve-se a esta distância entre a realidade e a sua descrição e não tanto ao facto de ser pretensamente uma linguagem universal (enquanto linguagem não o é, na realidade). A música é uma forma de comunicação universal precisamente porque é aquela mais distante da percepção quotidiana da nossa vivência e, por essa razão, aquela que menores expectativas cria em torno de um significado implícito.
Hesitei em colocar neste grupo o movimento, confesso que ao fazê-lo pensei em primeiro lugar na pantomima e só depois na dança, mas reconheço que não considerá-la seria uma grande injustiça. Por me ser uma área menos familiar, não dissertarei sobre o movimento, prefiro remeter para qualquer filme de Charlot toda a explicação sobre o fenómeno.
Enquanto meio de expressão, a imagem representa em relação à música e ao movimento uma aparentemente maior segurança, pois relaciona-se directamente com uma percepção da realidade que nos é familiar e quotidiana. Quando vemos a fotografia ou o desenho de uma árvore, todos reconhecemos um elemento que integra a nossa vivência, mesmo que nunca tenhamos visto aquela árvore ou sequer uma árvore semelhante àquela. Contudo, dois grandes limites da imagem são óbvios: o primeiro é quando a imagem se distancia do objecto retratado a ponto de não possibilitar o seu reconhecimento (uma fotografia muito tremida, por exemplo); quanto ao segundo, ilustro-o com uma pequena história: quando ofereci à minha afilhada, na altura ela teria 5 anos, um jogo com imagens de Miró e ela declarou "isto é uma árvore" apontando uma das peças, aquela imagem tornou-se evidentemente numa árvore, mesmo nunca o tendo sido até então.
Nos antípodas da música está a palavra. Quando dizemos ou escrevemos "árvore" todos pensamos numa árvore, embora não pensemos todos na mesma árvore: alguns de nós pensarão numa árvore em particular - num pessegueiro, num choupo - outros numa ideia de "árvore" que abrange todas as árvores que existem, existiram e existirão, e outros ainda, a maior parte de nós talvez, num conceito que é tão abrangente que exclui todas as árvores. Finalmente há a arte do equívoco - ao qual chamamos eufemismo, metáfora ou alegoria - e que consiste em atribuirmos a uma palavra um significado ou um contexto totalmente diferente daquele que é estatisticamente comum. Ao contrário da música, a palavra é a forma mais imperfeita de comunicação precisamente porque cria a maior expectativa em torno da compreensão de um significado implícito. Por essa razão, é também a mais utilizada.
Regressemos ao "wordpainting". Se cada cada um dos elementos do nosso quadrivium anteriormente exposto é uma ferramenta para traduzir o mundo em comunicação, é fascinante constatar que um pode se comportar como é próprio de outro. "Desenhar com palavras" ou "pintar uma palavra" são muito mais do que duplas traduções, são a assunção da capacidade de integrar num meio os valores intrínsecos e exclusivos de outro, e de o emular. O conceito de "wordpainting" implica um triplo apuramento desse processo pois trata-se de, através da música, provocar o efeito da imagem de uma palavra que por sua vez é um aprisionamento de uma parte da realidade.
À mente vêm-me imediatamente duas frases que captam este jogo camaleónico: "Pintura é silêncio para o espírito e música para o olhar" de O. Pamuk e "Musica: respiração das estátuas", de R.M. Rilke.
Cheguei ao ponto que motivou a redacção deste texto, pois é sobre a palavra e seus limites que pretendo discorrer. Introduzi há pouco um aforismo: a imperfeição da palavra como meio de comunicação reside nas expectativas que se criam. Mesmo conscientes desse problema, nada podemos fazer para o evitar. É precisamente esse equívoco, que habita o espaço entre a improbabilidade da comunicação definida por Luhmann e a impossibilidade declarada por Shaw, que possibilita o uso da palavra como ferramenta de expressão.
A palavra é mentirosa por natureza. Para o demonstrar, basta atentar em dois fenómenos: nos idiomas e nos dicionários.
- Se a palavra fosse verdadeira, não existiria mais do que um idioma. Os idiomas existem porque formatam e condicionam o pensamento. Escrever em português, italiano ou inglês não é o mesmo porque quando se pensa em português, italiano ou inglês não se pensa o mesmo. Se o pensamento fosse uma viagem, o idioma seria a estrada e as palavras os paralelos que a pavimentam. A palavra mente e os idiomas existem para que as mentiras possam percorrer diferentes caminhos. Precisamos de tantos idiomas porque é-nos mais fácil intuir o caminho certo no meio de tantos caminhos errados.
- Os dicionários são ao mesmo tempo os guardiões e mestres da mentira que reside na palavra, pois definem as áreas semânticas onde elas vagabundeiam e, pior ainda, fazem-nos crer que existem os sinónimos. A prova cabal da mentira inerente à palavra está na quantidade extraordinária de dicionários que existem e nas diferenças que ostentam. Se a palavra fosse verdadeira os dicionários não poderiam existir, seria impossível definir uma palavra usando outras palavras.
Muito para além de expressar aspectos da nossa vivência, a palavra é capaz de "se erguer acima das ocasiões" (parafraseando Pamuk) e tem o poder de "criar realidades" (para citar Sepúlveda). Isso sucede porque a palavra é simultaneamente matéria-prima e cálamo. Quando Sophia escreve "As paredes são brancas e suam de terror" ou Neruda "mi patria está en tus ojos" serão essas palavras expressão ou fonte de pensamentos? Compreendê-lo e amestrá-lo é descerrar a caixa dos pensamentos que nunca foram pensados, é aceder às realidades que nunca existiram.
O mundo da palavra é tão fascinante quanto perigoso. As palavras podem tecer armadilhas, criar realidades tão perfeitas que nos levem à desilusão e desprezo da outra realidade. Viver no mundo da palavra pode ser maravilhoso mas, porque não é impune, não pode ser feito de ânimo leve. Fernando Pessoa escreveu o que escreveu porque vivia nesse mundo. Mas quantos de nós estariam preparados para aceitar a vida de Pessoa-pessoa em troca de se tornarem no Pessoa-poeta?
O parágrafo seguinte foi o primeiro deste texto a ser escrito. Entretanto, as palavras que encadeei até aqui fizeram-me chegar ao ponto que pretendia mas não da maneira que tinha originalmente pensado. Pelo meio pensei e escrevi, ou escrevi e pensei, coisas que não estavam planeadas.
Tudo isto vem a propósito de ter encontrado recentemente um escritor, Orhan Pamuk, que apenas escreve frases perfeitas. Da leitura atenta de alguns dos seus textos concluí o seguinte:
- A frase perfeita implica a aceitação do potencial de equívoco inerente à palavra.
- A frase perfeita é combinação acertada das únicas palavras que reduzem o equívoco à mínima expressão.
- A frase perfeita são as asas do pensamento.
- A frase perfeita é mister para uma vida.
